Faz tempo que não escrevo aqui. Hoje deu vontade.
Dois pesos e nenhuma medida
Ana Cláudia Nogueira
A “lista de Furnas” surge, não por acaso, em ano eleitoral. Faz bem o José Serra quando lembra do inolvidável Dossiê Cayman para jogar uma pá de cal na história e dar o assunto por encerrado. Assim como fez bem toda a elite petista ao negar as então “calúnias” de Roberto Jefferson no ano passado. Negar, negar, negar: morrer negando – até que a verdade apareça. Ou não.
O Serra é apenas um dos mais de 150 políticos brasileiros “listados” que teriam recebido “recursos não contabilizados” – como diriam os petistas – de Furnas. A lista, afinal de contas, merece ou não credibilidade? Não se sabe. Mas fica a dúvida: em tempos de mensalão, porque não um furnão?
Serra – e os outros políticos listados – nega tudo. Repetição de uma cena ainda fresca na memória dos brasileiros. Para delírio da geral, o mesmo sacripanta que denuncia agora o esquema de Furnas foi o que denunciou, há menos de um ano, o esquema do mensalão, que já custou algumas cabeças – inclusive e principalmente a do próprio denunciante.
O estilo Jefferson de colocar as tripas dos bastidores políticos em exposição pública está cada dia mais interessante. Participante de todos os esquemas que ele próprio denuncia, Jefferson teria, tal qual um “joão bobo” – esperto –, passeado de um lado ao outro de governos díspares, tirando todo o proveito possível (e não é pouco). Melhor ainda: quem participa dos esquemas, fica sabendo de tudo, ou seja, fica municiado para futuras chantagens. Bom, não? Melhor impossível, para este tipo de gente.
Não estamos falando de santos. Políticos não são os melhores anjos do céu que Deus um dia decidiu pôr na Terra para consertar o que havia de errado. Não são neo-apóstolos (se bem que... tem o Judas!). Nem políticos, nem nenhuma outra classe é assim. Aliás, a lista de Furnas comprova essa teoria: não são todos os políticos suspeitos de receber o caixa2 (por favor, que fique bem claro: não estou acusando ninguém, nem estou afirmando que a lista sequer seja verdadeira!), mas alguns, apenas. “Só” 156. Só “neste” esquema. Milhares de outros estão de fora.
Dizem que a tal lista é verdadeira. Dizem que o perito Molina não achou indícios de fraude nela. Dizem. Quem? A imprensa. Ou melhor, fontes da imprensa. Vai demorar ainda um pouco para sabermos quem está certo e quem está errado. Da mesma forma que demorou para se comprovar a fraude do Dossiê Cayman e demorou para se comprovar que Marcos Valério de fato deu “recursos não contabilizados” para vários políticos.
Agora é uma questão de dar tempo ao tempo. Que os nobres políticos citados na tal lista não se afobem: a imprensa ainda vai especular muito sobre esta notícia. Há risco de se cometer injustiça? Sem dúvida. Mas me parece totalmente sem cabimento tentar intimidar a imprensa com ameaças – veladas ou não – de processos judiciais. A tal lista não foi fabricada pela mídia. Assim como o mensalão não foi denunciado por um repórter. No fundo, no fundo, trata-se exatamente da mesma coisa: furnão e mensalão obedecem a uma mesma lógica esdrúxula e tradicional de montagem de caixa 2; e, coincidentemente, denunciados pela mesma pessoa.
Se continuar assim, nessa sequência do tipo “fazer justiça com as próprias mãos, doa a quem doer”, o Roberto Jefferson vai terminar sendo indicado a algum alto cargo no Judiciário. Por mérito!
Escrito por Adoradora às 15h16
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